sexta-feira, 18 de maio de 2012

"O ciúme é o perfume do amor". Então, eu quero permanecer fedorento.


Acabei de ler na internet a seguinte nota: “Marido ciumento faz corredora vaidosa adotar meião de futebol para ficar menos ‘pelada’”. O texto conta o caso de Rosângela dos Santos, atleta brasileira dos 100m rasos, que, devido aos ciúmes do marido, funcionário da Marinha, “decidiu” calçar um par de meiões típicos dos e das praticantes do futebol para “amenizar a nudez” durante as competições (!). Ele não gostou de ver a mulher dele lá, com tudo de fora, exibindo o corpão sarado para todo mundo ver, reclamou que a roupa usada por ela nas competições é muito curta, e, como forma de “acalmar a fera”, ela resolveu colocar o tal meião. Ela ainda disse, de acordo com a reportagem, que o marido falou que ela está até “mais bonita” com o acessório extra, numa clara tentativa de disfarçar o caráter invasivo e desrespeitoso da “recomendação”.
Eu não sei o que é mais grave: o marido dela ter imposto uma peça de roupa ao vestuário para ela ficar “menos pelada” ou ela ter concordado, aceitado e feito o que o marido/dono dela mandou “em nome do amor”. E para completar, no final da nota, ela ainda diz que o sonho dela é se tornar passista de escola de samba, mas a tia dela não deixa por causa das roupas que uma passista (não) precisa usar na hora de sambar.
Ou seja, Rosângela faz o que o marido dela quer, o que a tia dela quer, mas não faz o que ELA quer. A vida é dela, o corpo é dela, o sonho é dela, mas ela renuncia a tudo isso para não desagradar a família.
Fico me perguntando: quando (e se) ela dará um basta nisso tudo e passará a vestir-se como quiser e fazer o que bem entender com a vida e o corpo dela? Que sociedade é essa que deixa os homens viverem como quiserem, mas a todo instante estão ditando normas e regras sobre o corpo feminino? Por que um homem pode sair às ruas sem camisa, exibindo o tórax bombado, mas uma mulher não pode exibir as pernas em uma competição de atletismo?
Regina Navarro já escreveu muito sobre isso, e eu não pretendo ser caixa de ressonância dos textos dela (ou pelo menos eu me comprometo a tentar não ser). O ciúme é um sentimento altamente destrutivo, mas infelizmente é passado para nós como uma coisa positiva; há até quem diga que “o ciúme é o perfume do amor”, um tempero a mais na relação (como se fossem necessárias demonstrações constantes de posse para uma pessoa se sentir amada). É nada mais do que um conjunto de práticas criadas para controlar o corpo da mulher de um modo menos indolor (se é que posso usar essa expressão). Controlar as roupas, o decote da blusa, o tamanho do vestido, da saia ou da bermuda, o uso de maquiagem, a cor do esmalte das unhas, o cabelo solto ou preso, os horários, nada disso é visto como estratégia de dominação. Nãão!!! É para o bem delas, pô! As mulheres não sabem dirigir as próprias vidas, portanto nada mais natural que nós, homens, donos da razão, a protejamos delas mesmas. Sabe como é, né, mulher solta sem governo só faz merda!
Já vi e ouvi vários comentários de e sobre mulheres que ficaram revoltadas com os seus companheiros/namorados/maridos porque eles não sentem ciúmes delas. Lembro de uma vez em que a minha mãe disse que estava no ponto de ônibus e ouviu uma mulher dizer que o namorado dela era um banana porque não sentia ciúmes dela. “Ele me deixa usar a roupa que eu quiser. Eu posso usar vestido decotado, saia curta, shortinho atochado e aquele panaca não fala nada”, disse ela (de acordo com a minha mãe, é claro). E eu fiquei pensando: porra, se ela tem liberdade para usar a roupa que bem entender e o namorado não fala nada, por que ela está recriminando o comportamento do cara ao invés de comemorar a conduta dele? O que essa mulher quer afinal?
Algumas mulheres parecem demonstrar que gostam e até veneram a ideia de serem dominadas pelos seus “donos”, coisa que me deixa mais assustado ainda por saber que elas mesmas acreditam que devem se submeter aos desmandos do companheiro/namorado/marido porque “homem é assim mesmo”. Há cerca de quinze anos, época em que eu ainda era estudante secundarista, uma colega de escola tentou me convencer por inúmeros argumentos, retirados principalmente da Bíblia, de que a mulher tem que ser submissa ao homem. Diante dessa convicção, a única coisa que me restou foi ficar calado.
Em conversa com um amigo, ele disse que uma namorada dele queria porque queria que ele sentisse ciúmes dela – e desse demonstrações públicas disso, é claro. Quando ele disse que não faria escândalo público ao vê-la conversando com outro homem porque ele não é dono do corpo das mulheres que se relacionam com ele, e que, por conta disso, ela tem o direito de conversar com qualquer pessoa, ela simplesmente o dispensou. Eu nem ao menos a conheço, mas gostaria muito de saber com que tipo de homem ela está se envolvendo agora.
Esse discurso do ciúme como uma coisa boa e necessária a qualquer relacionamento é presente nas nossas vidas porque é reforçado a todo instante através das coisas mais banais (músicas, novelas, filmes, histórias românticas, romances de banca de revista...). São histórias tão batidas e rebatidas que as pessoas adotam isso como parâmetros para as suas vidas e não conseguem se relacionar com ninguém sem exercer controle sobre a outra/outro, sem exigir relatório detalhado e circunstanciado das atividades diárias, sem fuçar o celular, o email e o perfil da outra pessoa nas redes sociais. Em entrevista à Revista Sexy de novembro de 2011, Carol Nakamura, assistente de palco do Domingão do Faustão, declarou que só namora um homem que passar a senha do perfil dele no Facebook para ela. À pergunta “Você é ciumenta?”, ela respondeu: “Extremamente! Sou um pouco descontrolada quando fico com ciúme. Tenho que estar no controle das coisas. Tem gente que acha bizarro, mas eu não acho nada de mais. Só namoro com senha de Facebook. Se não faz nada de mais, por que eu não posso saber?”, declarou ela. Ainda bem que eu e ela vivemos em mundos totalmente distintos, pois eu não quero uma mulher dessa perto de mim nem com a porra!
Isso só reforça aquela idéia de posse sobre o outro. Que as pessoas, em um relacionamento afetivo-amoroso, têm de estar disponível aos nossos humores, satisfazer nossas vontades e caprichos a todo instante, incluindo aí nos completar e atender a todas as nossas necessidades. Aquele velho discurso da “alma gêmea”, da “outra metade da laranja”, tão conhecido entre nós.
Se, para ela, isso é normal, para mim, isso é inadmissível. Nunca fiz isso. Todas as mulheres que já se envolveram comigo tiveram total liberdade para vestir-se como quiserem e conversar com quem bem entenderem. Não costumo bisbilhotar o celular, a bolsa, os bolsos, nem furtar senhas de email e redes sociais de mulher nenhuma para saber se elas estão saindo com outros homens. Não fiz – e não faço – isso com elas para que elas nem pensem em fazer isso comigo. Esse papo de “quem ama sente ciúme” não cola. Eu acredito que quem ama respeita, e o fato de uma mulher estar se relacionando comigo não me dá o direito de exercer domínio sobre ela – nem a ela sobre mim, diga-se de passagem.
Como já disse, esse discurso é passado através das coisas mais banais. E vou citar exemplos: certa vez, estava escutando uma música de Belo em uma barraca de praia. Não sei o título da música (e nem me interessa); só gravei a parte em que ele diz que “atrás de um ditador, existe um grande amor”. Fiquei espantado com o que ouvi – e não era para menos. Afinal, ele está dizendo que um homem violento, que grita, ofende, maltrata, humilha e espanca a mulher; controla o corpo dela; diz o que ela deve ou não deve fazer; com quem ela deve ou não deve conversar; que tipo de roupa ela deve ou não deve vestir e estabelece horários para ela sair e voltar (com direito a cronometragem de tempo para punir o mínimo atraso) faz tudo isso... porque a ama! Ele age assim porque se importa e se preocupa com ela!! E esse discurso é introjetado na cabeça das pessoas por intermédio de uma música romântica, que fala de amor, com uma melodia agradável, voz gostosa, como se estivesse falando no ouvidinho dela...
Não sei se é nessa mesma música ou em outra que Belo inicia a canção pedindo perdão à namorada por ter mexido na bolsa e revirado a intimidade dela. Como sempre, com a mesma voz mansinha, falando no ouvidinho bem baixinho para ninguém ouvir. E ainda há mulheres que delirem e se derretam ao ouvir isso. Mais uma vez, o que me assusta é saber que muitas dessas mulheres se deixam manipular muito facilmente com besteirinhas do tipo que ouvem de muitos calhordas depois de uma discussão: “meu amor, me desculpe, eu só fiz isso porque eu te amo. Isso não vai mais acontecer, eu estava de cabeça quente”.
Em outro momento, escutei uma música do Exaltasamba em que Péricles canta: “se ela não tem dono/se ela não tem dono/ela é minha/ela é minha”. Trocando em miúdos: as mulheres são objetos passíveis de se tornarem propriedade de um homem. As mulheres têm de ter um dono, e as que não o tiverem estão automaticamente disponíveis. Eu só preciso pegar, levar e me apossar delas.
O machismo, o racismo e a homofobia são naturalizados nas mentes das pessoas assim mesmo: através de piadinhas, músicas, de palavras doces e palatáveis; de algo que as faça rir e delirar de emoção e prazer. E qualquer pessoa que se voltar contra isso será a mala-chata-insuportável da vez, que vê coisa onde não existe. Será possível que esse cara não desliga nem um minuto sequer? Nem na praia, de sunga, tomando sol e bebendo cerveja esse cara para um pouco? Tudo é racismo, tudo é preconceito. Porra, é só uma música, caralho!!!
Há também quem venha com o argumento de que "você não entendeu o que eu falei", "não foi isso que eu quis dizer"; "o que eu disse foi um equívoco, um comentário infeliz". Nós nunca entendemos nada. As pessoas nunca querem dizer o que dizem. Nunca sabemos interpretar porra de nada. 
Serão essas as críticas que eu receberei após a divulgação dessas maltraçadas linhas no mundo virtual. Podem vir, pois eu já estou preparado.

domingo, 13 de maio de 2012

Sobre o Dia das Mães. Sim, mas de que mães nós estamos falando?


Ontem, eu repassei uma postagem no Facebook sobre o Dia das Mães. Nela, havia um casal composto por um homem preto, uma mulher preta e uma criança preta com uma mensagem de felicitação pela data. Nada mais justo, pois, afinal de contas, o Dia das Mães caiu neste ano em 13 de maio, data em que se comemora 124 anos de abolição da escravatura (que eu prefiro chamar de 124 anos de chute na bunda), e que, por pressão dos movimentos sociais, foi ressignificada como Dia Nacional de Combate ao Racismo. E não só por isso. O que há de errado numa postagem de felicitação ao Dia das Mães que traga uma foto de pessoas pretas? O padrão é sermos caucasianos, de estirpe europeia?. Ou será que não existem mães pretas no nosso paraíso etnorracial?



Hoje, ao acessar o meu perfil, um conhecido meu escreveu: “Preto não é cor? Parabéns somente para as mulheres negras? Sem mais... aí não curti...”. Isso me enfureceu sobremaneira. Já dei uma resposta a ele lá mesmo no Facebook, mas resolvi dar uma resposta mais elaborada e publicar aqui para que mais pessoas tenham acesso.



Vou repetir o que eu já escrevi: qual é a sua, cara? Você já viu alguma propaganda do Dia das Mães com alguma negona? Alguém lembra que as mulheres pretas também têm filhos? Se as brancas não querem nem saber que existem mulheres pretas (a não ser quando elas precisam de uma escravinha para limpar a merda, cozinhar, lavar e passar os panos de bunda delas, é claro), por que raios você acha que eu deveria lembrar das mulheres brancas? 

O engraçado é que pessoas como você só reclamam da ausência de mulheres brancas quando há um anúncio só com mulheres pretas (que são raríssimos por sinal), mas eu nunca vi uma pessoa sentir a falta de mulheres pretas num anúncio só com mulheres brancas (isso me lembrou de um dos episódios da temporada 2012 do programa Esquenta, apresentado por Regina Casé, em que ela disse que estava sendo chamada de racista porque no programa dela só tinha preto, e que por isso ela resolveu levar algumas pessoas brancas ao programa para convencer o público do contrário, isto é, que ela não é racista). Eu sou filho de uma mulher preta, neto de uma mulher preta (de quem eu tenho e terei saudades eternas), conheço e trabalho com muitas mulheres pretas que são mães, e portanto eu estou prestando uma homenagem A ESSAS mulheres. Mulheres que são tratadas como se não existissem; que não tem direito a um pré-natal digno e não recebem sequer anestesia quando chega a hora de dar a luz seus filhos; que são sistematicamente maltratadas, agredidas, abandonadas e assassinadas pelos namorados e maridos (que são, na maioria dos casos, homens tão pretos quanto elas) e que por isso têm de se virar para trabalhar e sustentar as suas crianças; que não tem creche para colocar os filhos enquanto trabalham, e que por isso são obrigadas a deixar os filhos menores aos cuidados do irmão mais velho ou com a vizinha (quando elas acham uma vizinha que se disponha a fazer isso, porque senão elas terão de abandonar seus empregos e fazer um bico aqui e outro acolá pra garantir o pão daquele dia no sustento de sua cria); que não têm uma escola decente para os seus filhos estudarem e buscarem um futuro melhor (porque filho de preto tem mais é que trabalhar para ajudar no sustento da casa; esse negócio de estudar é invenção de moda; onde já se viu, preto querer estudar?; se o criouléu todo resolver virar doutor, quem vai lavar minha privada?); que, no dia de hoje, tiveram de aguentar todos os tipos possíveis e imagináveis de humilhações para visitar os seus filhos nos presídios e que também, neste exato momento, estão chorando e reconhecendo os seus filhos mortos nas geladeiras do Instituto Médico-Legal (o fato de a maioria da população carcerária e de cadáveres nos necrotérios ser de pessoas negras deve ser mera coincidência ou simples fatalidade, pois preto deve ser tudo bandido mesmo – e bandido bom é bandido morto). É para essas mulheres que eu estou falando. São essas as mulheres que eu estou homenageando.



Que discursinho mais democracia racial da p... Você está parecendo aqueles caras do Democratas que dizem que as cotas para negros nas universidades (cuja constitucionalidade foi ratificada pelo Supremo Tribunal Federal em decisão unânime nos dias 25 e 26 de abril últimos) não contemplam os brancos pobres. Afinal de contas, dizem esses canalhas, o nosso problema não é racial, e sim socioeconômico (como se o racismo não fosse um problema socioeconômico), em que uns tem muito e outros não têm nada, e esse lance de cotas deve agregar critérios sociais e não raciais. Não é mesmo?

Duas coisas: 1) ao contrário do que a midiona tenta fazer a população brasileira acreditar, os brancos pobres também estão sendo beneficiados pelas cotas; 2) os brancos pobres não ocupam o mesmo lugar que os pretos pobres, até porque os brancos pobres não se reconhecem como iguais aos pretos pobres. Numa sociedade racista como a nossa, em que o racismo é estrutural e regulador das nossas relações sociais, ser branco significa ter capital simbólico. Ou você nunca ouviu um branco pobre, favelado e subempregado olhar para a cara de um preto que têm as mesmas condições de vida que ele e dizer: “pelo menos eu não sou preto igual a você”? Mas vamos deixar o sistema de cotas de lado por enquanto, pois o assunto do texto é outro. 

Se não quiser curtir, não curta. Eu nunca tive a pretensão de agradar a todos mesmo. Faça o que você achar melhor. Pois eu não tenho a menor vontade de querer mudar a cabeça de ninguém através das coisas que eu posto nas redes sociais (até porque isso é impossível; eu só posso propor, a mudança de mentalidade é decisão de cada um e eu não posso determinar isso), ou até mesmo, fazer alguém enxergar melhor. Até porque a minha formação é de professor de história e não de médico oftalmologista.

Se não quer ver o que está para além do seu umbigo e da sua redoma existencial, pode me excluir. É muito mais sensato, ou muito menos cansativo pra você e pra mim.

Combinado?


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Reis e Ratos: puta desperdício de tempo


Sábado à tarde, estava em casa com a minha digníssima sem ter o que fazer e em busca de algum entretenimento. Devido à nossa vontade de sair e após alguns minutos sem nenhum indicativo de para onde ir, resolvemos rumar ao cinema para ver Reis e Ratos. Não havia lido nada sobre o filme: uma nota publicada numa revista, uma resenha do caderno cultural do jornal A Tarde, uma análise feita por algum crítico da moda ou coisa que o valha. Me limitei somente a uma propaganda que vi no Jornal da Metrópole e ao título do filme, que achei instigante. A única informação que busquei foi o elenco principal. Quando vi os nomes de Paula Burlamaqui, Rodrigo Santoro, Seu Jorge, Otávio Müller e especialmente de Selton Mello, concluí que seria bom arriscar. Quebrei a cara.

Putesgrila! O filme é confuso do começo ao fim (até o fim, eu já não digo porque saí antes. Pelo menos até a última cena que eu vi). Quando soube que a história estava periodizada na década de 1960, quando apareceram os primeiros personagens fazendo alusões à guerra contra o comunismo, o símbolo da foice e do martelo e os caracteres inicialmente no alfabeto cirílico e, logo em seguida, traduzidos para o alfabeto latino, pensei que o filme versaria sobre alguma coisa relacionada ao período da Guerra Fria, mundo bipolar, divisão do mundo entre capitalistas e comunistas, Estados Unidos de um lado e União Soviética do outro, essas coisas. De fato, o enredo do filme está situado nesse período histórico, mas eu não consegui ver a ligação entre uma coisa e a outra. Eu até me esforcei, mas não deu. Assisti ao filme durante mais de uma hora, mas, por não ter conseguido entender nada, joguei a toalha e casquei fora.

Eu não fui o único. A minha digníssima, cuja paciência é bem menor do que a minha, chegou a cochilar nas primeiras cenas por não aguentar tanta chatice, mas não debandou logo de cara após olhar para o lado, me ver concentrado, achar que eu estava entendendo alguma coisa e não querer estragar meu prazer (antes ela tivesse feito o contrário). Uma quantidade significativa de pessoas também debandaram da sala muito provavelmente por não terem compreendido porra nenhuma. Quando eu disse que estava “voando” e propus a debandada, ela aceitou imediatamente e, ato contínuo, “pegamos a pista”.

Eu até gosto do trabalho de Selton Mello; para mim, ele é um ator fantástico. As atuações dele em Meu Nome Não É Johnny e em Jean Charles foram memoráveis, mas é a terceira vez que eu saí puto do cinema por não ter conseguido entender a mensagem que ele quis passar. A primeira vez foi quando eu assisti a O Cheiro do Ralo, filme do qual eu não compreendi nada e não sei por onde começou, muito menos onde terminou. A segunda foi quando eu assisti a O Palhaço. Saí de casa cheio de expectativas: porra, deve ser legal, o primeiro filme dele como diretor, ainda mais contracenando com Paulo José, uma boa pedida, vou lá conferir. Resultado: me estrepei. A terceira (e, acredito eu, derradeira) foi no último sábado.

E não venham me dizer que o problema foi meu. Eu não sou o arauto da intelectualidade (estou longe disso), não sou cinéfilo (pelo menos não me considero assim), não sou crítico de cinema, nenhum José Wilker ou Rubens Ewald Filho da vida, mas também não sou nenhuma anta. Não sei vocês, mas eu, já há algum tempo, parei de pensar que a culpa é sempre minha por não ter entendido um filme ou um livro. A culpa pode ser também da pessoa que escreveu, por que não? As pessoas falam a partir de códigos que são inteligíveis (eu tenho de ter a capacidade de entender, mas a pessoa que escreve ou produz também tem de ser clara ao emitir a mensagem). Se a diretora Paula Lavigne e a equipe de produção do filme usou uma linguagem confusa demais, acessível somente a elas mesmas e olhe lá, eu sou culpado por não ter captado o que ela tentou dizer (se é que ela quis dizer alguma coisa)? Devo me considerar intelectualmente limitado por isso? Eu sei que não terei tempo de vida para entender tudo (e nem sei se isso é necessariamente bom), mas também não acredito que devo pensar que sou uma besta quadrada por ter passado mais de uma hora vendo uma porra de um filme e não ter assimilado nada do que vi. E mais: além de o meu senso pretensamente intelectualóide não estar ligado o tempo todo (será mesmo?), eu estou convencido de que há coisas na vida que não foram feitas para serem entendidas. Ou eu aceito, ou eu não aceito. Eu penso assim, e ninguém tem obrigação de concordar comigo (e nem o direito de me xingar por eu pensar dessa forma).

Não vou perder um minuto do meu sono sofrendo por não ter conseguido entender um filme ou um livro. Já perdi, mas não perco e não perderei mais. Eu não consegui entender esse, mas já entendi e tenho certeza de que ainda entenderei muitos outros. A vida é muito curta.

Bola pra frente que atrás vem gente. Eu já perdi muitas batalhas, mas as que entram – e entrarão - no meu currículo são as que eu ganhei e as que eu ainda vou ganhar. Viremos a página e prossigamos.

Para finalizar: eu não sou nenhum ditador. Eu não escrevi esse texto para dizer o que as outras pessoas devem fazer. Se quiserem ignorar o que eu disse e ir ao cinema ver esse filme, vão e vejam. Afinal, cada um tem o direito de fazer o que quiser (e esse texto não é nenhuma resenha fílmica, ou pelo menos não o escrevi com esse caráter). Não é porque eu não entendi o filme que ninguém mais vai entender. Como já disse Martha Medeiros, “eu não sirvo de exemplo para nada. Mas se alguém quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes”.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

"E agora? Quem poderá me salvar?"


Conversa rápida que tive ontem com uma das minhas estudantes antes da aula:

Ela: Esse lugar está horrível. Violento demais. Lá em frente ao prédio onde eu moro, junta um monte de gente para usar e vender drogas todo dia a partir das 10 da noite. Por conta disso, tenho de ficar sempre atenta para não deixar os meus filhos na rua até tarde. Sei lá, pode acontecer alguma briga ou tiroteio e eles serem feridos com isso.

Eu: É verdade. Você tem de tomar muito cuidado.

Ela: É por isso que eu dificilmente assisto à sua aula. Tenho de voltar pra casa cedo.

Eu: Tranquilidade. É por uma boa causa.

Ela: E o que mais me revolta é que ninguém faz nada. Aquele pessoal faz uma zoada desgraçada todo dia, vende e consome drogas abertamente e ninguém toma uma atitude; ninguém chama a polícia.

Eu: E por que VOCÊ não chama a polícia?

Ela: Eu, não!! Tá louco?! Eu tenho três filhos pra criar. E se esses caras descobrirem que fui eu a autora da denúncia e vierem atrás de mim para se vingar?

Eu: E você já pensou na possibilidade de os seus vizinhos não terem chamado a polícia por essas mesmas razões? Você já imaginou que os seus vizinhos podem sentir o mesmo medo que você sente de denunciar o caso e sofrer retaliações por causa disso? Você já pensou que as outras pessoas que moram no mesmo prédio onde você mora também têm filhos e, consequentemente, também têm medo de morrer e deixar as suas crianças desamparadas?  

Ela: (olhou para mim, virou-se e foi embora sem dizer nada).

Impressionante como as pessoas ficam indignadas com uma determinada situação, mas sempre esperam que alguém resolva a parada por elas. É provável que ela pense que é a única pessoa do mundo que tem filhos para criar, e, portanto, não pode se expor e correr riscos desnecessários - mas os outros podem, é claro.

É o que eu sempre digo: pimenta no rabo dos outros é refresco.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Jesus te ama, irmão"

Ontem à tarde, após um compromisso, estava voltando para casa. Quando o ônibus passou pelo Bom Juá, vi que havia um grupo de evangélicos fazendo pregação no meio da rua. Havia gente distribuindo panfletos aos transeuntes e dentro do carro (que mais parecia um trio elétrico, dada a quantidade, o tamanho e a potência das caixas de som). O pregador estava gritando e gesticulando (como sempre), fazendo de tudo para chamar a atenção das pessoas e, quem sabe, tentar trazer mais uma ovelha desgarrada para o rebanho do senhor. O buzu dentro do qual eu estava passou bem na hora em que o sujeito falou a seguinte frase:

“A IRA DO SENHOR PERMANECERÁ SOBRE AQUELES QUE REJEITAM A SALVAÇÃO”

Ao ouvir isso, pensei: para tudo! São essas as pessoas que vivem repetindo o tempo todo que deus é bom, amoroso, compassivo e misericordioso, cheio de bons sentimentos e incapaz de guardar mágoas e rancores? Então, por que deus fica irado com as pessoas que não querem ser salvas? Esses fanáticos falam a todo instante que a Bíblia diz que deus deu o livre-arbítrio para que a humanidade possa fazer as suas escolhas. Todavia, por que deus se torna implacável contra os seres humanos que tomam decisões que não condizem com os interesses dele? Se deus é tão compreensivo quanto dizem, eu acho que ele tem que aceitar qualquer decisão tomada pelos humanos (livre-arbítrio é isso – pelo menos para mim). Se ele me dotou da capacidade de decidir, eu vou tomar a decisão que eu bem entender. Se eu quiser fumar maconha, beber, estudar Direito, virar bandido, estudar física quântica, me prostituir, escalar um prédio sem equipamento de segurança ou seja lá o que mais, deus não tem nada a ver com isso. Ele deu o poder do discernimento a mim e, agora, não quer aceitar o caminho que EU escolhi para a minha vida? Só lamento. Agora, aguente!

O mais irônico disso tudo é que são essas mesmíssimas pessoas, que acreditam nesse deus vingativo, perseguidor, cruel e autoritário, que saem às ruas para distribuir folhetinho, fazer pregação nos ônibus, dizer que deus é amor (!), que jesus tem um plano na minha vida, e que para isso eu tenho de entrar em determinada igreja para receber as bênçãos dos céus e ser agraciado com a salvação. Já tive um colega de escola que só faltou colocar uma arma na minha cabeça e me obrigar a ir à igreja porque ELE achava que eu tinha de ser salvo de qualquer jeito, pois jesus havia mudado a vida dele e queria mudar a minha também – por mais que eu não quisesse isso. A minha sorte foi que o ônibus apareceu logo, e, em virtude da situação, eu pulei dentro e larguei o babaca lá falando sozinho. Nunca mais vi o desgraçado depois daquele dia (ainda bem!).

Tô fora! Cultuar um deus que ficará o tempo todo se metendo na minha vida, vigiando as minhas ações, interferindo nas minhas vontades mais subjetivas, dizendo o que eu devo ou não devo fazer e que não hesitará em acabar comigo se por acaso eu, em algum momento, não fizer o que ele quer? Nem morto! Quem vai é coelho!!!

(Se deus é capaz de fazer isso tudo porque me ama, eu nem quero imaginar o que ele faria caso me odiasse.)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

"Você está com cara de terrorista!!!"

Sou negro, alto, corto os meus cabelos muito esporadicamente e gosto bastante da minha barba. Odeio ter de passar barbeador na cara toda semana; acho isso um saco. Por conta disso, sempre aparece um (ou uma) mala para encher a minha paciência dizendo que eu deveria tirar a barba (como se eu tivesse pedido a opinião delas acerca do meu visual), que a barba envelhece a aparência da pessoa (como se eu me preocupasse em ser jovem a vida toda), que a barba dá uma aparência de falta de higiene (apesar de eu lavar a minha barba todo dia com shampoo anticaspa e penteá-la cuidadosamente), que o homem sem barba fica mais apresentável (como se eu fizesse questão alguma de ser simpático), dentre outras coisas.

Por conta da minha barba grande, várias pessoas, conhecidas ou não, ao me verem na rua, têm reações diversas: umas pensam que eu sou mendigo, outras pensam que eu estou de mal com a vida (como se não ter barba fosse indicador de que eu estivesse radiante de felicidade), outras pensam que eu sou usuário de drogas ilícitas (claro, né, Rogério?! Quem vai imaginar que uma pessoa branquinha, loirinha e de olhos azuis, de cabelos bem tratados e barba bem aparada, bem vestida, arrumada e perfumada fuma maconha, cheira cocaína ou cachimba crack? Você também, viu?!). E, para terminar, sou constantemente associado por essas pessoas aos membros do Taliban. Frequentemente surge no meu caminho um imbecil para gritar “bin Laden”, “ô Osama!”, “terrorista!!!”. Como se os terroristas fossem só muçulmanos com longas barbas e turbantes.

Semana passada, ao chegar a um dos locais onde trabalho, uma estudante olhou para mim e disse que eu estava igual a um terrorista. Eu, ao ouvir isso, parei, respirei, contive os meus impulsos, medi bem as minhas palavras, olhei de volta para a cara dela e sentenciei:

-É verdade. Você está certa. Aquele sujeito que matou 76 pessoas lá na Noruega é parecidíssimo comigo. Quase meu irmão gêmeo, de tão semelhante a mim. Se estivéssemos um ao lado do outro, ficaria difícil distinguir quem é quem.

Quem pensaria que um homem loiro, alto, de olhos azuis, cabelos bem tratados e muitíssimo bem vestido seria um assaltante, por exemplo? NINGUÉM!!! Ladrão é só aquele sujeitinho vestido com uma camisa da Billabong, bermuda da Cyclone, sandália Kenner, boné da Adidas, batidão feito com abridor de latinha de cerveja, com um anel em cada dedo e óculos escuros da armação rosa ou verde-cana. Aí, sim, né? Tá na cara!!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Racismo é engraçado?

Estava navegando pela internet despropositadamente quando vi no site do Instituto Geledés uma nota sobre uma acusação de racismo contra o SBT. O texto repudiava uma apresentação, feita no Programa Silvio Santos, de um humorista que atende pela alcunha de “Mulher Feijoada”, negro e presumidamente homossexual, que levou o auditório ao delírio ao contar piadas racistas do começo ao fim do seu “espetáculo”. Aquela velha postura de escravo da casa-grande que faz de tudo para agradar o senhor de engenho, incluindo aí servir de bobo-da-corte para os convidados deste.

Desnecessário dizer que eu ODIEI esse showzinho tétrico. Falo isso porque um dos instrumentos mais poderosos a serviço do racismo é justamente o humor. As piadinhas racistas têm um poder extraordinário de naturalizar o racismo na cabeça das pessoas. Afinal, tendemos a gostar e a aceitar aquilo que nos faz rir. Até já escrevi sobre isso.

É também por causa disso que o combate ao racismo se torna mais difícil, até porque toda pessoa que vai de encontro ao que é “engraçado” invariavelmente é tachada de chata, mala e mal-humorada. Porra, será possível que você não desliga nem na hora de se divertir? Logo, tudo é aceito como uma simples "brincadeira". Quem é louco de expressar seu ódio racial com afirmações veementes ao outro? Os nossos racistas dificilmente têm coragem de dizer na cara o que pensam sobre as pessoas que mais odeiam na vida. Que o diga a baiana eleita a mais bela descendente de italianos neste ano.

Toda vez que eu condeno publicamente a postura das pessoas que se utilizam do humor para veicular e reforçar estereótipos racistas, machistas e homofóbicos na mente dos outros, a reação é sempre a mesma: você está vendo coisa onde não existe, isso é coisa da sua cabeça, "é só uma piada", você não tem senso de humor, "toda piada tem uma vítima" (curioso é que as vítimas são sempre negros, gays, mulheres, gordos... Por que ninguém faz piada com homens brancos, ricos, europeus e heterossexuais?), é assim mesmo, fazer piada é o trabalho do cara... Ele vive disso, pô!

Se algum humorista fizesse, por exemplo, piada de judeu (se o humorista não fosse judeu, é claro), não faltaria gente para repudiá-lo pelo antissemitismo. Mas quando alguém rechaça piadas contra negros, essas mesmas pessoas dizem que nós estamos enchendo o saco, que nós não temos o que fazer, que nós somos paranóicos que vemos racismo em tudo, que nós somos complexados, que ninguém pode falar mais nada... Tudo é racismo, tudo é preconceito, QUE PORRA!!!

Há três anos, a Federação Israelita do Rio de Janeiro entrou na justiça para impedir que um carro alegórico da Viradouro que trazia uma suástica e uma imagem de Hitler desfilasse na Sapucaí. Não me lembro de ter visto, lido ou ouvido nenhuma declaração ofensiva contra os judeus ou tentando minimizar a tragédia e o sofrimento impostos pelo nazismo. Afinal de contas, eles estão certos; o holocausto nazista foi um dos maiores crimes da história, seis milhões de judeus foram exterminados nos campos de concentração, um absurdo!

(Como disse o poeta martinicano Aimé Césaire, os europeus, antes da ascensão do Terceiro Reich, protagonizaram inúmeras carnificinas fora da Europa tranquilamente. Quem já leu alguma coisa sobre o tráfico de escravizados sabe do que eu estou falando. Populações inteiras e culturas milenares foram aniquiladas na Ásia, na América e na África durante séculos e os europeus que ficaram lá na Europa acharam que isso era o certo, pois tratava-se de povos "atrasados" e "inferiores" que os europeus tinham a obrigação moral de "domesticar".

Quando o poeta irlandês Roger Casement denunciou as atrocidades cometidas pelo regime do rei belga Leopoldo II no Congo, que matou cerca de trinta milhões de pessoas de 1885 a 1908, ninguém levou o cara a sério. O grande arquiteto intelectual do nazismo, o médico alemão Eugen Fischer, testou a validade das suas teorias, aprendeu a construir campos de concentração e a matar pessoas na ilha de Shark, na Namíbia (tomem conhecimento disso aqui). Entretanto, ele não foi execrado por ninguém devido a isso.

Mas quando Hitler e os seus cupinchas usaram toda essa experiência acumulada em construir máquinas da morte para fazer a mesma coisa dentro da Europa, foi um absurdo. Veio a criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos [promulgada numa época em que os mesmos europeus ainda estavam escravizando, explorando, estuprando e exterminando gente nas colônias africanas], a Convenção de Genebra e o caralho a quatro. Tudo porque os europeus tinham de se proteger deles mesmos.

Pimenta no rabo dos outros é refresco.)

Se fosse uma entidade do movimento negro que entrasse na justiça para impedir que um carro alegórico de uma escola de samba qualquer desfilasse exibindo uma imagem de um negro sendo chibateado no tronco, essas mesmas pessoas torceriam o nariz, diriam que isso é uma bobagem, a história foi assim mesmo
(o fato serviria apenas para uma retratação dos fatos históricos que constituem a formação do país), os negros já gostam de se fazer de vítima, a escravidão já passou e que os negros não melhoram de vida porque só ficam pensando no passado ao invés de esquecê-lo, olhar para a frente, trabalhar duro e cuidar da vida. Ahhh, que saco!!

E ainda gritariam no final: "CENSURA! CENSURA! OS NEGROS QUEREM ACABAR COM A LIBERDADE ARTÍSTICA NO PAÍS!!!"